SÃO PAULO - Há coisa de dois anos, o humorista Jô Soares apresentava em Lisboa o espetáculo "Remix em Pessoa", em que recitava poemas musicados de Fernando Pessoa (1888-1935), ou melhor, do heterônimo Álvaro de Campos, quando lhe veio a ideia. O poema "Tabacaria", muito longo, estava fora do show, mas continha em si uma inspiração. "O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?)/Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica", diz o verso, e Jô na mesma hora pensou que aquele "Esteves sem metafísica" deveria ser um sujeito de raciocínio binário, um português com raciocínio sem espaço para divagações.
Nascia ali Tobias Esteves, o "inspector" da polícia portuguesa que imigrou para o Brasil e é o principal personagem de "As esganadas", novo romance do escritor, editado pela Companhia das Letras (com tiragem de 80 mil exemplares), que chega neste sábado às livrarias e à internet em versão digital. Quinto livro e quarto romance do comediante, "As esganadas" se passa no Rio de Janeiro da década de 1930 e conta a história do misterioso assassinato de mulheres gordíssimas, cujos corpos são sempre encontrados entupidos do que há de melhor na gastronomia portuguesa. Uma turma de protagonistas insólitos e hilários se dispõe a desvendar a trama, batizada pela imprensa da capital federal como "O caso das esganadas", numa corrida contra o tempo para evitar que o assassino faça sua próxima vítima.
Fã de romances policiais históricos, Jô Soares repete em "As esganadas" o mesmo formato de seus romances anteriores, "O Xangô de Baker Street", "O homem que matou Getúlio Vargas" e "Assassinatos na Academia Brasileira de Letras" (seu último, de 2005): uma mistura de trama policialesca com pesquisa histórica, regada a humor inteligente e fina ironia, um livro que se lê num fôlego só. São deliciosas suas reproduções de reclames do rádio da época ("Para fadiga mental, nervosa e muscular, o Phospho-Kola de Giffoni é saboroso, granulado e glicerofosfatado") e as descrições das partidas da Copa do Mundo de 1938, disputada na França, já tensa por conta da Segunda Guerra.
- Penso no livro como um roteiro de filme e jamais começo a escrever antes que eu saiba como vai terminar a história - diz Jô Soares em sua sala gigante, misto de escritório e sala de estar, no primeiro andar de seu apartamento dúplex, em Higienópolis, Zona Oeste de São Paulo.
Ele escreveu "As esganadas" em 18 meses:
- Todo dia pego no livro para trabalhar porque senão ele foge. Quase nunca escrevo menos de quatro horas por dia, às tardes e à noite. Mas, às vezes, ainda que não bata inspiração, abro o livro e coloco pelo menos uma vírgula, para não perder o fio da meada.
Apesar da maratona de entrevistas para a imprensa escrita - e que será apenas o início de uma longa jornada de apresentação do livro -, Jô fala pelos cotovelos. E tem assunto. Há uma semana, estreou no Teatro Cultura Artística Itaim, em São Paulo, a peça "O libertino", dirigida por ele, e que conta a história do filósofo Diderot, interpretado pelo ator Cassio Scapin, também produtor. Nos próximos dias, estará em quatro programas jornalísticos e de auditório falando do livro, além da noite de autógrafos programada para quarta-feira na Livraria Cultura do Conjunto Nacional de São Paulo. E a revelação: prepara um quadro para o programa "Fantástico", da Rede Globo, baseado em "As esganadas".
- Mais não digo porque estraga a surpresa. Eu nem deveria estar aqui falando isso - diz ele.
Mas vai falando. Aos 73 anos, o humorista, dramaturgo, romancista, jornalista, ator e pintor José Eugênio (Jô) Soares é, ao mesmo tempo, uma das pessoas mais conhecidas do país e uma das que menos falam à imprensa. A não ser, diz ele, quando "há algo sobre o qual valha a pena falar, um projeto ou um trabalho, e que as pessoas possam ter interesse em saber a respeito". Por isso não tem página no Facebook nem perfil no Twitter ("Tenho um nível de ocupação tão diversificado que não posso entrar em mais uma atividade dessas"), mas acompanha com avidez as repercussões sobre seus livros na imprensa ("Todo artista é muito autocentrado, né?"). O fim de seu casamento com a designer Flávia Junqueira foi seguido com avidez sanguinária pelas revistas de fofoca, mas Jô nada disse. Tem sua maneira de falar de si e dos outros. Como na primeira página de "As esganadas", onde se lê: "Para Flavinha, sempre."
Pergunto se procura no Google informações sobre Jô Soares.
- Não me googlo, nem me assisto na TV. É claro que a gente repassa o programa após a gravação para ver se precisa mudar algo, mas nunca depois. É assim desde os humorísticos. Quando está gravando, você se acha um Deus. Depois vou ver e a decepção é tão grande que eu me acho até gordo na tela - brinca.
Sem rotinas diárias, o humorista diz que o "Programa do Jô" é a coisa mais importante de sua vida, e tudo o mais tem que se adaptar à rotina de reuniões e gravações, incluindo livros. Depois de 22 anos fazendo o programa (11 no SBT e 11 na Globo), ele não está enjoado do formato.
- Mas isso não interessa. O que importa é o conteúdo, e nisso o programa se renova sempre porque os entrevistados são sempre diferentes. Isso também me renova. Neste tempo todo, consegui depoimentos que são verdadeiras memórias de gente como Luis Carlos Prestes ou Dom Helder Câmara. Nesse ponto, sou como o (jornalista americano) Larry King: são quase 15 mil entrevistas, e estou só começando.
Fonteyahoo

Nascia ali Tobias Esteves, o "inspector" da polícia portuguesa que imigrou para o Brasil e é o principal personagem de "As esganadas", novo romance do escritor, editado pela Companhia das Letras (com tiragem de 80 mil exemplares), que chega neste sábado às livrarias e à internet em versão digital. Quinto livro e quarto romance do comediante, "As esganadas" se passa no Rio de Janeiro da década de 1930 e conta a história do misterioso assassinato de mulheres gordíssimas, cujos corpos são sempre encontrados entupidos do que há de melhor na gastronomia portuguesa. Uma turma de protagonistas insólitos e hilários se dispõe a desvendar a trama, batizada pela imprensa da capital federal como "O caso das esganadas", numa corrida contra o tempo para evitar que o assassino faça sua próxima vítima.
Fã de romances policiais históricos, Jô Soares repete em "As esganadas" o mesmo formato de seus romances anteriores, "O Xangô de Baker Street", "O homem que matou Getúlio Vargas" e "Assassinatos na Academia Brasileira de Letras" (seu último, de 2005): uma mistura de trama policialesca com pesquisa histórica, regada a humor inteligente e fina ironia, um livro que se lê num fôlego só. São deliciosas suas reproduções de reclames do rádio da época ("Para fadiga mental, nervosa e muscular, o Phospho-Kola de Giffoni é saboroso, granulado e glicerofosfatado") e as descrições das partidas da Copa do Mundo de 1938, disputada na França, já tensa por conta da Segunda Guerra.
- Penso no livro como um roteiro de filme e jamais começo a escrever antes que eu saiba como vai terminar a história - diz Jô Soares em sua sala gigante, misto de escritório e sala de estar, no primeiro andar de seu apartamento dúplex, em Higienópolis, Zona Oeste de São Paulo.
Ele escreveu "As esganadas" em 18 meses:
- Todo dia pego no livro para trabalhar porque senão ele foge. Quase nunca escrevo menos de quatro horas por dia, às tardes e à noite. Mas, às vezes, ainda que não bata inspiração, abro o livro e coloco pelo menos uma vírgula, para não perder o fio da meada.
Apesar da maratona de entrevistas para a imprensa escrita - e que será apenas o início de uma longa jornada de apresentação do livro -, Jô fala pelos cotovelos. E tem assunto. Há uma semana, estreou no Teatro Cultura Artística Itaim, em São Paulo, a peça "O libertino", dirigida por ele, e que conta a história do filósofo Diderot, interpretado pelo ator Cassio Scapin, também produtor. Nos próximos dias, estará em quatro programas jornalísticos e de auditório falando do livro, além da noite de autógrafos programada para quarta-feira na Livraria Cultura do Conjunto Nacional de São Paulo. E a revelação: prepara um quadro para o programa "Fantástico", da Rede Globo, baseado em "As esganadas".
- Mais não digo porque estraga a surpresa. Eu nem deveria estar aqui falando isso - diz ele.
Mas vai falando. Aos 73 anos, o humorista, dramaturgo, romancista, jornalista, ator e pintor José Eugênio (Jô) Soares é, ao mesmo tempo, uma das pessoas mais conhecidas do país e uma das que menos falam à imprensa. A não ser, diz ele, quando "há algo sobre o qual valha a pena falar, um projeto ou um trabalho, e que as pessoas possam ter interesse em saber a respeito". Por isso não tem página no Facebook nem perfil no Twitter ("Tenho um nível de ocupação tão diversificado que não posso entrar em mais uma atividade dessas"), mas acompanha com avidez as repercussões sobre seus livros na imprensa ("Todo artista é muito autocentrado, né?"). O fim de seu casamento com a designer Flávia Junqueira foi seguido com avidez sanguinária pelas revistas de fofoca, mas Jô nada disse. Tem sua maneira de falar de si e dos outros. Como na primeira página de "As esganadas", onde se lê: "Para Flavinha, sempre."
Pergunto se procura no Google informações sobre Jô Soares.
- Não me googlo, nem me assisto na TV. É claro que a gente repassa o programa após a gravação para ver se precisa mudar algo, mas nunca depois. É assim desde os humorísticos. Quando está gravando, você se acha um Deus. Depois vou ver e a decepção é tão grande que eu me acho até gordo na tela - brinca.
Sem rotinas diárias, o humorista diz que o "Programa do Jô" é a coisa mais importante de sua vida, e tudo o mais tem que se adaptar à rotina de reuniões e gravações, incluindo livros. Depois de 22 anos fazendo o programa (11 no SBT e 11 na Globo), ele não está enjoado do formato.
- Mas isso não interessa. O que importa é o conteúdo, e nisso o programa se renova sempre porque os entrevistados são sempre diferentes. Isso também me renova. Neste tempo todo, consegui depoimentos que são verdadeiras memórias de gente como Luis Carlos Prestes ou Dom Helder Câmara. Nesse ponto, sou como o (jornalista americano) Larry King: são quase 15 mil entrevistas, e estou só começando.
Fonteyahoo

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